sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

POEMA DA ÁRVORE

As árvores crescem sós. E a sós florescem.



Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.



Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.



Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.



E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.



Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fosse.



As árvores não.

Solitárias, as árvores,

exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.



Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.



Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

a crescer e a florir sem consciência.



Virtude vegetal viver a sós

e entretanto dar flores.