sábado, 20 de setembro de 2008

Saudades

Se você pensa que sabe;
que a vida lhe mostre o quanto não sabe.
Se você é muito simpático, mas leva
meia hora para concluir seu pensamento:
que a vida lhe ensine, que explica melhor o seu problema, aquele que começa pelo fim.

Se você faz exames demais, que a vida lhe ensine, que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando.

Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.
- Tanto mais lúdica, quanto mais complexa.
- Tanto mais complexa, quanto mais consciente.
- Tanto mais consciente, quanto mais difícil.
- Tanto mais difícil, quanto mais grandiosa.


Se você pensa que disponibilidade, com paz, não é felicidade; que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.

Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido, e se apresentem tão sedutoras, quanto enganosas.


Que a vida nos ensine, a todos, a nunca
dizer as verdades na hora da raiva.
Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois.


Que a vida ensine, que tão ou mais difícil
do que ter razão, é saber tê-la.

Que aquele garoto, que não come, coma.

Que aquele que mata, não mate.

Que aquela timidez do pobre passe.

Que a moça esforçada se forme.

Que o jovem jovie.

Que o velho velhe.

Que a moça moce.

Que a luz luza.

Que a paz paze.

Que o som soe.

Que a mãe manhe.

Que o pai paie.

Que o sol sole.

Que o filho filhe.

Que a árvore arvore.

Que o ninho aninhe.

Que o mar mare.

Que a cor core.

Que o abraço abrace.

Que o perdão perdoe.

Que tudo vire verbo e verbe.

Verde. Como a esperança.
Pois, do jeito que o mundo vai,
dá vontade de apagar, e começar tudo de novo.

A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.