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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Contradição

Gritei por muito tempo o que eu sentia
Em olhares diretos e prementes,
Enquanto o corpo em frêmitos candentes
Mandava só mensagens de agonia.

Palavras sem véus, nuas, transparentes,
Voavam da minh’alma com poesia...
A atenção ao meu amor adormecia
Nas horas que acordavam já doentes...

Ah, mas a vida é tão contraditória!...
Às vezes muda o curso de uma história,
E o que era justo vira artificial.

Hoje a ironia usada em entrelinhas,
Avesso das verdades que eram minhas,
Faz-me ser consagrada em pedestal!...

domingo, 13 de abril de 2008

Terra Fértil

Sou terra, firme e fecunda.
Se regam meu solo com sabedoria,
penetrando em minhas gretas
as mais belas harmonias,
reproduzirei fecundos gametas
e brotarei para a vida... florida.
As raízes que em mim se prendem
sustentam verdadeiros sentimentos
contra a força dos piores ventos.
Os alicerces que constroem
no meu terreno afetivo
dão abrigo, permanente e seguro,
àqueles que temem o futuro.
Os buracos que cavam no meu âmago
ficarão abertos por pouco tempo,
pois o aterro de uma nobre ação
preencherá os vazios doentes
com várias camadas de perdão.
O veneno da mentira,
borrifado em minhas virtudes,
evapora-se rapidamente
com a colheita de boas atitudes.
Não sou terra improdutiva,
nem latifúndio sem dono,
pois os grãos em mim plantados
alimentarão o tranqüilo sono
daqueles por mim amados.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Manhã de Outono

Uma chuva fina e intermitente
encontra-me só e indiferente,
olhando pela janela entreaberta
o mundo que lá fora desperta.


De repente, um piado renitente
chega até meu coração doído,
então desperto subitamente
e acudo um pássaro caído.


Estava molhado e com frio,
levando alimento ao ninho
que descubro, para minha surpresa,
na varanda, embaixo da mesa.


Com cuidado e atenção
cuidei daquela família
que não me deixou mais só,
adotando-me como filha.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Quadrilátero

De um lado sou temerosa:

escondo-me do denso perigo

e, na ânsia de procurar um abrigo,

sou devorada pelos meandros do desconhecido.



Do outro lado sou corajosa:

de peito aberto e alma a descoberto,

entrego-me à primeira aventura

que me conduza à loucura.



Mas na outra face sou mentirosa:

uso minha máscara obscura,

fazendo da vida um pretexto

e fragmentando a quem me procura.



Do lado oposto sou verdadeira:

rasgo o véu do preconceito,

coadjuvo, sou companheira,

e ao amor me entrego por inteira.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Amor Fracassado

Toda vez que me despeço de ti,

não sei o que virá depois,

se a cama desfeita conserva

ainda o suor de nós dois.



Toda vez que me despeço de ti,

não sei como será amanhã,

se resistirei à tua ausência

até as primeiras horas da manhã.



Toda vez que me despeço de ti,

não sei se te verei outra vez,

por isso a fuga insensata

na estúpida embriaguez.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Flor-Mulher

Sou a rosa que desfolhaste outrora,
voltei pra alimentar teus sonhos de agora;
sou aquela que, enamorado, olhavas e indagavas:
- Será que ela vai me querer ou me jogará fora?

Nenhum beija-flor te roubou de meus pensamentos,
por isso estou de volta , trouxe-te meu perfume,
inebria-te nele, liberta teus afogueamentos,
sente a minha pele e põe fim ao teu queixume.

Não sou mais botão, sou flor-mulher,
desabrochei-me em desejos e nem percebeste...
Não sou flor de campina, a que ninguém quer,
meu coração há algum tempo já colheste.

Não broto em desalinho pelos caminhos,
nem vergo à toa diante de vento algum,
mas trago nascidos em mim vários espinhos
que só o teu perdão arrancará um a um.

Sê o meu canteiro, vaso ou jardim,
acolhe-me e me replanta em teu peito,
rega minha saudade até que ela tenha fim
e despetala meu sedento amor em teu leito.

sábado, 22 de setembro de 2007

Procura-se

Procuramos por ti... Onde estás?
Onde te escondes?
Vemos guerras sem sentido,
morte estúpida de inocentes,
acordos de paz aparentes.
Onde estás?
Precisamos de ti, urgente!

Vemos crianças famintas,
abandonadas à própria sina.
Na África, verdadeiras carnificinas,
com a Aids em cada esquina.
Onde estás?
Precisamos te encontrar numa vacina.

Violência que assola as cidades,
arrancando inocentes dos lares,
disseminando drogas aos milhares.
Onde estás?
Não nos trate com esgares.

Vemos conflitos raciais,
chacinas em nome da religião,
disputas sangrentas pelo mesmo chão.
Onde estás?
Precisamos que nos estendas a mão.

Vemos a destruição da natureza,
extração irregular de suas riquezas,
degradação e extermínio de suas belezas.
Onde estás?

Precisamos da tua nobreza.

Clamamos por ti na terra,
para acabares com as guerras,
para reinares com a tua presença
como lenitivo para as doenças,
para servires de elo entre os povos
unindo-os em suas diversas crenças...

Por favor, atende nosso pedido!
Acode ao ser humano sofrido!
Zela por um mundo renascido!

sábado, 15 de setembro de 2007

Cavalo de Tróia

Ele se aproximou sorrateiramente,
apresentou-se como um cavalheiro experiente,
conquistando um espaço destroçado
no meu coração já trancado.

Foi ficando... se instalando,
dispondo minha vida a seu jeito...
Com o tempo, tudo o que eu apreciava
não prestava, via sempre um defeito.

Até que um dia inverti a brincadeira:
passei a ser a ilusória companheira,
tipo de mulher que seus desejos satisfazia,
dando-lhe tudo aquilo que queria.

Sem perceber que eu engendrava uma tramóia,
foi se sentindo vencedor, esbanjando confiança...
E, diante de um amor ornado em falsa jóia,
o seu reinado sucumbiu à minha vingança.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Em Súplicas

Peito apertado, nó na garganta,
angústia que o coração não espanta,
solidão que divide o meu convívio...
Desviem suas garras de mim
e deixem o sono me trazer alívio!

Lágrimas que traçam trilhas
nas faces que o tempo encarquilha,
dor estampada em sofrimento...
Desanuviem suas nuvens escuras
e tragam sorrisos como lenimento!

Descrença que me acompanha
enredando-me numa teia de aranha,
covardia que me tem como detento...
Desatem as amarras da amargura
e semeiem de fé o meu momento!

Infelicidade que o meu ser espreme,
deixando-me como barco sem leme,
desamor que a minh’alma detém...
Fujam para o infinito do inferno
e me presenteiem com o amor de alguém!

Só assim, com o sono a me trazer alívio,
depois de ganhar o amor de alguém,
terei em meu rosto de volta o sorriso
e a fé a comandar meu juízo também.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Corsário do Amor

Ele chegava do mar
para levar os meus sonhos,
subtrair os meus anos
e depois me abandonar,
na solidão incontidada minha alma sem vida.
O amor que eu sentia, ele sugava,
como quem tira um tesouro
do seio da mãe natureza.
Depois ia embora, em júbilos,
deixando como mensagem
a arte da boa pilhagem.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

CREPÚSCULO DA SOLIDÃO

O tempo lentamente escorre entre teus dedos...
Sem afetos, teu deserto atravessaste em romarias...
Guardaste no relicário do passado poucos segredos,
agora o mesmo tempo te mostra a conta em dias.
Vergando teus desenganos nesta silente melancolia,
esperas que a lenta contagem seja interrompida...
Mas será este o prêmio de uma corrida sem magia,
um retrato desbotado que levarás de despedida?
Fria e dormente sociedade que muito te discrimina,
sem reconhecer o significado abrangente da velhice...
Nem te permite matizar a alma por tuas fracas retinas
e o que te resta de anseios ela ainda chama de tolice.
Deixa o coração diluir o quanto zombaram de ti,
pois o que colheste de aprendizado é rara sabedoria...
Voar em sonhos não te desmereceu em nada até aqui,
deles te alimentaste e foste traçando tua filosofia.
Quando o amanhã chegar te mostrando o descanso,
sorri para todos que não te deram o merecido valor,
escuta a música de acalanto da tua alma em remanso,
vai ao encontro do teu intenso brilho... seja lá como for.

À VIDA

Nada vai me tirar a ilusão do paraíso,
nem tampouco apagar meus sonhos...
Não perderei meu tino, meu juízo...
A ti sempre darei olhares risonhos.
Podem chover em mim ingratidões,
obstáculos vedarem o brilho da claridade
ou desafinarem as notas das canções...
A ti sempre darei olhares de suavidade.
Maldades prevalecendo ao perfume da doçura
ou mãos ceifando o desabrochar da flor,
nem isso me empurrará à loucura...
A ti sempre darei olhares de amor.
Pode o céu pra mim não azule
cere até a noite devorar meu dia...
Mas as vozes de minh’alma,
quem as irá emudecer,
se a ti sempre darei olhares em poesia?

sábado, 23 de junho de 2007

Visita Indesejada

Vá indolência, sai de mim,
vá morar no infinito da tristeza,
pois minha alma com certeza
quer amar, conceber, parir
a imensidão da beleza
que a poesia me faz sentir.


Vá atormentar a escuridão
daqueles que não querem acordar
para voar,
cantando através de versos
todo o pungente amar.


Vá indolência, vá embora,
porque já não vejo a hora
de transbordar no papel
toda a riqueza da vida
com poesias a granel.


Vá habitar outras almas
que te querem por companheira,
pois aqui nestas paragens
tu não encontrarás ancoragem:
... tua visita é passageira!

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Obsessão

Você me olha...
As vestes me desfolha...
O desejo me molha...
Nua...
Espero que me possua...
Seu aroma no ar flutua...
Enlouqueço...
Naquele momento de tudo esqueço...
Será este um recomeço?...
Esperança...
Deixo de lado a arquitetada vingança,
Por ter perdido no amor a confiança.
Renascida...
Entrego-me, totalmente perdida...
Até entorpecer os sentidos... sem medida...
Insaciada... ainda tenho fome...
Mas seu corpo do meu corpo some...
Acordo gritando seu nome...

Máscara da Saudade

Sua melancolia era tanta,
mas precisava contê-la.
Uma lágrima furtiva
teimava em verter, intuitiva,
borrando a alegre maquiagem
que escondia a imagem
de uma fisionomia aflita.


- Respeitável público!,
brada a voz no picadeiro.
Ele entraria primeiro
desde que a tragédia aconteceu:
a sua amada trapezista,
que agora voava nas nuvens,
deu um passo em falso e morreu.


Os gritos de "Viva o palhaço!"
ecoavam pelo circo
junto ao rufar do tambor.
... E como era um ator,
entrou dando piruetas,
fazendo mesuras, caretas,
escondendo a sua dor

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Inquietude

A parede secular e descascada
do casarão amarelo
refletia numa pequena poça d'água.
Um imenso flamboyant
pendia do telhado encardido
salpicando, no inerte reflexo,
inúteis retalhos vermelhos de quietude.

Quietude alucinante!

Não me quero assim,
como se fosse aquela pintura,
que vejo todos os dias
do meu lençol de cetim,
depois de expulsar indiferente
mais um de dentro de mim.

Não quero essa vida de ninguém!

Quero o bailado suave
de dois corpos se encontrando.
Quero a plenitude do vôo compartilhado.
Quero sonhar o sonho inesperado.
Quero a cor fúcsia dos indelicados.
Quero carregar no ventre
a metade de nós e não um fruto de todos.
Quero o sabor agridoce do amor.
Quero me refletir no que vier,
pois quero ser apenas uma mulher!