"O CORAÇÃO DOS HOMENS"
Eu a vi passar.
Comecei a vê-la de longe, quando despontou na rua.
Reconheci sua blusa, mas achei diferente sua maneira de caminhar.
Aquele andar mole de quem vai para lugar nenhum.
Talvez não fosse o caso, entretanto, quando as pessoas não estão felizes, por mais que andem, aparentam não ir para lugar nenhum.
Pensei que fosse outra pessoa.
Há muitas blusas de mesma cor e muita gente que anda sem saber das pernas, sem ir para lugar nenhum. Mas o cabelo também era dela, ou melhor, era dela de tarde, puxado à escôva, de um jeito qualquer, sempre às pressas, às vezes com desgosto.
Era ela, sim, e veio andando.
Pensei em deixá-la passar e só dizer-lhe uma coisa, se ela me visse e me demorasse os olhos.
Mas eu não havia sentido aquele apêrto no coração que as pessoas sentem quando têm culpa, ódio ou amor, na pessoa que passa.
Eu estava inocente, nela.
E procurei mesmo seus olhos, durante todo o tempo em que veio vindo.
Um simples sentimento amistoso se apossava de mim e me impelia ao gesto tristemente fraternal de abrir-lhe os braços, com aquela naturalidade dos amigos que nunca se sofreram... e dizer as palavras esparsas, sem conteúdo, sem raízes, sem a dor necessária, que há no fundo de todas as palavras de quem ama.
Eu senti que seria capaz de todas as interjeições idiotas, de todas as vogais com "h", de todos os beijos desprezíveis que os amigos trocam nas bochechas.
Então, procurei, às pressas, aflitamente, dentro de mim, um pouco de dor, fosse ela feita de ciume, despeito, vaidade, fosse o que fosse e não encontrei.
A gente quando precisa das coisas não encontra nunca!
Ela estava cada vez mais perto.
Já podia ver-lhe os olhos, os mesmos e belos de sempre, mas tão sem destino quanto seu andar.
Por que ao menos isso não me comovia?
Não havia tempo, mas naquele minuto que em minha mente era demorado e espaçoso, revi minhas angústias passadas, todas tão intensas e verdadeiras.
Todas esquecidas agora, como se eu tivesse uma memória nova, sem marcas ainda, e a antiga apenas lhe tivesse contado o que se passara..
Exatamente isso eu me lembrava, mas as lembranças, embora tão nítidas, não me faziam bem nem mal.
Enfim, quando passou à minha frente, disse-lhe o nome: fulana!
Parou, subitamente, como se recebesse uma flecha nas costas.
E não parou, apenas; imobilizou-se. Depois é que voltou o rosto e me fitou nos olhos.
Eu olhei sua boca, porque era sempre em sua boca que as coisas aconteciam.
Qualquer acontecimento de sua alma (triste ou alegre) foi sempre em sua boca que transpareceu, como uma criança.
As crianças têm a boca mais comovente que os olhos.
Aquele fremir do lábio inferior que precede o choro da criança é o momento mais singelo do ser humano.
A gente não o respeita e o chama de "fazer beicinho"...
E essa moça que vinha vindo guardou isso do tempo em que foi criança. Seus olhos sabem esconder, omitir, mentir.
Sua boca não sabe, e foi sempre por ela que me guiei.
Via-a, agora e não sentia nada.
Que sem jeito iria ficar, se ela chorasse.
Estendi-lhe os braços, amistosamente.
Perguntei-lhe, sem querer pela saúde... Como é melancólico chegar-se à paz tão perfeita de se perguntar pela saúde da pessoa que se amou.
Os amantes não cogitam dos detalhes da saúde.
Fiz todas essas coisas banais dos amigos.
Beijei-lhe as bochechas, ofereci-lhe minha mãos, segurei-lhe os ombros com elas, mexi-lhe os cabelos e, à medida que mais amistoso me mostrava, mais me perdia de mim mesmo..
Agora sim, me perdia e não conseguia fitar o seu olhar no meu, como que a me cobrar aquele ar magoado que sempre tive.
E agora?
O que me restava?
Só pedir que seguisse em frente, que me deixasse em paz, com minha repugnante serenidade de gente livre e forte.
Seu olhar mendigo nos meus olhos. Sua boca de criança cujo ritual eu gostaria de desmanchar com as mãos, porque sentia que dali em diante, começaria a sofrer de verdade.

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