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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

FELICIDADE

Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
"Bom dia, árvore velha e desfolhada"
e eu respondi: "Bom dia, folha morta"
Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...


Então chamou-me e disse:"Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz"


E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!

domingo, 7 de setembro de 2008

Quando as folhas caírem

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
Nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos.

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós na tristeza do sol posto.
hão de falar as rugas do meu rosto
e hão de falar os teus cabelos brancos!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Simplicidade... Simplicidade

Simplicidade... Simplicidade...
ser como as rosas, o céu sem fim, a árvore, o rio...
pôr que não há de ser toda gente assim?


Ser como as rosas: bocas vermelhas
que não disseram nunca a ninguém
que tem perfumes... Mas as abelhas
e os homens sabem o que elas tem!


Ser como o espaço que é azul de longe
de perto é nada... Mas quem o vê
-árvores, aves, olhos de monge...-
busca-o sem mesmo saber por que.


Ser como o rio cheio de graça
que move o moinho, dá vida ao lar
fecunda as terras... E, rindo, passa,
despretensiosos, sempre a cantar.


ou ser como a árvore: aos lavradores
dá lenha e fruto, dá sombra e paz
dá ninho as aves: ao inseto, flores...
mas nada sabe do bem que faz.


Felicidade - sonho sombrio!
Feliz é o simples que sabe ser
como o ar, as rosas, a árvore, o rio:
simples, mas simples sem o saber!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

FELICIDADE

Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
"Bom dia, árvore velha e desfolhada"
e eu respondi: "Bom dia, folha morta"
Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...


Então chamou-me e disse:"Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz"


E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Flor do Asfalto

Flor do asfalto, encantada flor de seda,

sugestão de um crepúsculo de outono,

de uma folha que cai, tonta de sono,

riscando a solidão de uma alameda...



Trazes nos olhos a melancolia

das longas perspectivas paralelas,

das avenidas outonais, daquelas

ruas cheias de folhas amarelas

sob um silêncio de tapeçaria...



Em tua voz nervosa tumultua

essa voz de folhagens desbotadas,

quando choram ao longo das calçadas,

simétricas, iguais e abandonadas,

as árvores tristíssimas da rua!



Flor da cidade, em teu perfume existe

Qualquer coisa que lembra folhas mortas,

sombras de pôr de sol, árvores tortas,

pela rua calada em que recortas

tua silhueta extravagante e triste...



Flor de volúpia, flor de mocidade,

teu vulto, penetrante como um gume,

passa e, passando, como que resume

no olhar, na voz, no gesto e no perfume,

a vida singular desta cidade!