terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PERCEPÇÃO DE SOLIDÃO

Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se na última fila.
Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, outra
mulher entra na mesma sala e se acomoda na quinta fila, sozinha
também. O filme começa.

Charada: qual das duas está mais sozinha?

Só uma delas está realmente sozinha: a que não tem um amor, a que não
está com a vida preenchida de afetos. Já a outra foi ao cinema
sozinha, mas não está só, mesmo numa situação idêntica a da outra
mulher. Ela tem uma família, ela tem alguém, ela tem um álibi.

Muitas mulheres já viveram isso - e homens também. Você viaja sozinha,
almoça sozinha em restaurantes, mas não se sente só porque é apenas
uma contingência do momento - há alguém a sua espera em casa. Esta
retaguarda alivia a sensação de solidão. Você está sozinha, não é
sozinha.

Então de repente você perde seu amor e sua sensação de solidão muda
completamente. Você pode continuar fazendo tudo o que fazia antes -
sozinha - mas agora a solidão pesará como nunca pesou. Agora ela não é
mais uma opção, é um fardo.

Isso não é nenhuma raridade, acontece às pencas. Nossa percepção de
solidão infelizmente ainda depende do nosso status social. Se você tem
alguém, você encara a vida sem preconceitos, você expõe-se sem se
preocupar com o que pensam os outros, você lida com sua solidão com
maturidade e bom humor. No entanto, se você carrega o estigma de
solitária, sua solidão triplicará de tamanho, ela não será algo fácil
de levar, como uma bolsa. Ela será uma cruz de chumbo. É como se todos
pudessem enxergar as ausências que você carrega, como se todos
apontassem em sua direção: ela está sozinha no cinema por falta de
companhia! Por que ninguém aponta para a outra, que está igualmente
sozinha?

Porque ninguém está, de fato, apontando para nenhuma das duas. Quem
aponta somos nós mesmos, para nosso próprio umbigo. Somos nós que nos
cobramos, somos nós que nos julgamos. Ninguém está sozinho quando
curte a própria companhia, porém somos reféns das convenções, e quando
estamos sós, nossa solidão parece piscar uma luz vermelha chamando a
atenção de todos. Relaxe. A solidão é invisível. Só é percebida por
dentro.